Passaram por aquela rua em que sempre passavam depois de se encontrarem. Aquele peso que ela sentira mais cedo, após uma enorme discus...

Dor que sara

13:48 Islanya Gomes 4 Comentários



Passaram por aquela rua em que sempre passavam depois de se encontrarem. Aquele peso que ela sentira mais cedo, após uma enorme discussão em seu lar, tinha ido embora. Restava apenas uma leveza no peito que segurar a mão dele lhe proporcionava. Chegaram ao ponto esperado e ele falou algo que ela não esperava que ele falasse, aquilo que ela sempre ouvia de todo mundo, mas que não esperava que aquilo saísse da boca dele, logo dele! A verdade é que ela não estava preparada para escutar aquilo... E nunca iria estar! Mas quem disse que a vida é assim? Quem disse que a vida espera a gente se preparar antes de ser atropelado por palavras que nos machuquem? Veio um ardor no peito, aquele fogo no fundo dos olhos, o aperto que esmagava seu coração, aquilo tudo que ela conhecia muito bem. Silêncio: era tudo que restava. Porque ela era feita de silêncio. Era uma maneira de escapar de tudo. Da dor, da auto acusação, do desamparo... Talvez isso tenha sido o que mais doeu naquele momento. Há pessoas que dificilmente entregam seu coração à alguém e quando entregam esperam que nada possa vir à despedaçá-las novamente.

Se amadurecer era o que ela precisava, então decidiu fazê-lo. Só passava pela sua cabeça uma coisa: "É verdade! Tudo que me falavam, que me machucava, era verdade! O erro está em mim! O ERRO ESTÁ EM MIM!". Mas não com um sentimento de autocomiseração, mas como um ódio por não ter aberto os próprios olhos outrora. Sentiu que não tinha mais nada e ninguém para se apoiar naquele instante, era ela e seus pensamentos. Suas memórias e fantasmas passados. Não podia fugir, não queria sentir-se covarde novamente, não queria entregar os pontos como sempre fazia. Precisava fazer algo por si. Pela primeira vez a solidão doeu, mas não ficou somente a dor. Ficou a dor que sara. Como aquele remédio que nossas mães passavam quando levávamos um tombo quando crianças. A dor que faz a gente lembrar de nunca mais mexer naquilo que nos machuca. A dor que nos amadure! 

E ali estava ela, confrontando-se, pensando em mil perguntas sem respostas. Respostas essas que talvez não encontrasse agora, pois tudo estava muito novo na sua mente, precisava dar o ponto de partido para a mudança. Pensando na possibilidade de tudo isso ser só mais uma peça que a vida prega na gente, hesitou e permitiu-se chorar. Sim! O choque foi tão grande que não tinham saído lágrimas até o momento. Olhando assim, tudo isso que lhes conto, parece ter passado em horas, mas passaram-se apenas segundos. Um turbilhão de coisas aconteceram em alguns segundos. Alguns segundos para desmoronar-se em lágrimas. Alguns segundos para sua vida virar de cabeça para baixo. Talvez tomar aquelas palavras e encontrar um modo de "crescer" não fosse necessário. Talvez tomar tal decisão pudesse sentir mais dor do que qualquer outra coisa que passara na vida. Talvez confiar nele e em suas palavras só a deixassem sentir-se mais frágil. Mas não tinha de pensar no "talvez". Precisava fazer, sentir, sangrar, cair, chorar, perder, morrer se preciso. Era uma questão de mostrar para si mesma que podia provar para todo mundo que não precisava provar nada para ninguém. E foi.

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